PEREGRINAÇÃO / caminhada a FÁTIMA...

Comecei, caminheiro e acabei PEREGRINO!


08 de Maio 2012, começa hoje um dos meus (grandes) desafios em caminhadas. Ponto de chegada Fátima! Ao mesmo tempo quero tentar perceber, o sentimento dos peregrinos e o que os leva a fazer este tipo de sacrifícios. Faltam 10 horas para o início e estou apreensivo e ao mesmo tempo ansioso, para começar e ver se consigo superar-me.
(alguns dos fatos e situações aqui descritas, são apontamentos que fui tomando, ao longo da peregrinação, podem também perceber que o pormenor dos locais e horas vai-se perdendo à medida que a peregrinação avança)

1º dia/noite
Cerca das 23h30m de terça-feira, começámos a nossa caminhada, próxima paragem, Sr. das Almas (Oliveira do Hospital). Aqui entra mais uma companheira de viagem. Antes, ouve uma pequena paragem na Povoa das Quartas, para reagrupar e repor líquidos. Somos cerca de 80, contando com os nossos Anjos da Guarda (pessoal do apoio). Por esta altura, levo uma mochila às costas, com alguns (poucos), bens de 1ª necessidade, como faço nas caminhadas. São 03h00m da manhã, chegámos ao Sr. das Almas, 1º reabastecimento, estou bem fisicamente, mas percebo que o peso da mochila não me vai ajudar, antes pelo contrário; além disso os carros de apoio acompanha-nos ao longo do trajeto. Resolvo deixar o peso num dos carros. 04h45m, estamos na Venda da Esperança; reposição de líquidos e “reparação” de algumas “mazelas”. A GNR de Seia, Oliveira do Hospital e Tábua, acompanharam-nos até ao limite de cada concelho, respetivamente. Já próximo da Moita os meus rins pediam ajuda, nada que uma massagem rápida não resolva, com ajuda de um Anjo da Guarda. 07h30m, mais à frente, nova paragem o pequeno almoço aguarda-nos. Tempo aproveitado para “reparação” de algumas feridas. Apesar de estar bem fisicamente, o meu pé esquerdo pede ajuda; uma pequena bolha (borregas). O pé é prontamente recauchutado e fica como novo. Mais uma vez os nossos Anjos da Guarda, são incansáveis! Passamos pela Cruz Vermelha, no alto da Moita da Serra e a próxima paragem é a nossa cama, no pavilhão de São Martinho da Cortiça. Esqueci-me de referir que a noite/caminhada, começa, sempre, por rezar-se o terço em andamento! 52 Kms depois e completamente “desgastados” é avistado o pavilhão, onde vamos comer e descansar. São 12h15m. Aqui ainda tivemos como companhia um grupo de São Romão e outro de Vinhó/Manteigas. Só falta o banho, comer e cama. Dormi apenas 2 horas.
Andar de noite permite-nos avançar mais, porque está fresco e nos caminhos florestais é engraçado, porque não sabemos quando é a subir ou a descer nem vemos o fim; está completamente escuro e só temos que nos concentrar, nos cerca de dois metros que a nossa lanterna nos mostra.

2º dia/noite

A saída é sempre entre as 23h00m e 24h00m de cada dia/noite, o nº de horas a andar foi em média de 12 horas por dia. Chegou uma altura em que já não perguntávamos quantos kms faltam mas sim quantas horas! Esta 2ª etapa, correu normalmente, apenas me recordo de subirmos a Serra de S. Pedro Dias por um atalho (que é um picada, incrível) onde me senti bem a subi-la. E no final depois de Miranda do Corvo, uma subida com alguns (muitos) kms e um calor abrasador, até chegarmos à nossa cama. Apesar de termos que fazer menos kms, demorámos mais tempo a concluir o trajeto, devido a esta subida e ao calor. O cansaço já acumulado e o sono, também não ajudam.
Estamos já com dois dias e apenas consegui dormir 3 horas. Neste dia ao acordar, tinha uma sapatilha de alguém quase em cima da minha cara.

3º dia/noite

Hoje os curativos levaram mais tempo que o normal, muita gente a precisar de recauchutar os pneus, onde eu estava incluído. Tinha uma rebanho de borregas (bolhas), nos pés totalmente descontrolado, sem pastor. Mas os nossos Anjos da Guarda, sabem fazer o trabalho como ninguém e ficávamos com os pés prontos para outra. Foi nesta altura que resolvi seguir um conselho da D. Rosa (esposa), colocar pensos higiénicos nos sapatos, para absorver a humidade. E devo confessar que resulta mesmo. Não precisei de recauchutar os pés, novamente, apenas massagens.
Devido a este atraso a saída foi às 00h20m, fizemos um atalho com cerca de 7 kms cheio de lama e pedras, onde poupámos muitos mais kms, mas devido ao cansaço e possivelmente ao relevo do terreno, apesar de me sentir bem as minhas pernas começaram a dar sinais de fraqueza. E com o raiar do dia e quase a chegar a Ansião onde tínhamos o pequeno almoço à espera (sempre bem servido pelos nossos Anjos da Guarda), o joelho esquerdo “rebentou” de vês. A chegada ao local foi penosa de mais para mim, qualquer pequena descida (sim descida, quem disse que: “A descer todos os santos ajudam”, não deve ter andado muito a pé) era um sofrimento. Até que já perto de Ansião e com muitas dores resolvi descansar encostado a um muro; não sei se foi pelas dores intensas ou pelo esforço que eu ia a fazer para andar (devagar, mas andar), comecei a ter alguns sintomas, devido à falta de açúcar; sabendo que desmaiava em poucos segundos, caso não ingeri-se glucose (açúcar), lembrei-me que tinha uma barra energética no bolso, que comi rapidamente, com um golo de água. Apesar de não ter dito nada a ninguém, estive sempre acompanhado com pessoas do grupo, caso acontece-se alguma coisa. Repostos os níveis, consegui chegar penosamente ao local já referido, onde 1º tratei de descansar e dormir um pouco, tinha, praticamente, duas diretas, com apenas 3 horas de sono e muito cansaço, além das dores. 15 minutos depois acordo, como e bebo comida açucarada e lá vai o coxo, com muitas dores. Pela 1ª e ultima vez o “vassoura” (outro dos Anjos a Guarda que não deixava ninguém para trás) esteve à minha espera e acompanhou-me durante algum tempo na minha penosa marcha. Assim que comecei andar, encontrei num passeio em Ansião encostado à parede um pau de oliveira, à minha espera. Olhei à minha volta, não vi ninguém e dada a minha condição física, resolvi pegar nele para me ajudar a caminhar, antes já tinha arranjado outro amigo (cedido por mais um Anjo da Guarda) que me acompanhou até ao fim; um joelho elástico. Foram dois grandes “companheiros” ao longo de todo o resto do percurso, aos quais se viria a juntar um terceiro. As dores eram intensas;  foi nessa altura que fiquei sozinho, entre dois grupos de companheiros de viagem. Começou então um dialogo comigo mesmo, muito difícil para mim; desistir ou não desistir; enquanto a conversa ia decorrendo eu ia andando, devagar, mas andando. Foi então que passei pela 1ª vez pelo grupo parado à espera para reagrupar. Faltavam poucos, eu e mais 3 ou 4 que vinham logo atrás. Disseram que tinha que parar e esperar, mas percebi que se para-se possivelmente já não conseguiria andar mais, além disso o dialogo ainda não tinha acabado. Avancei, fiz de conta que não ouvi e fui acabar a conversa comigo mesmo, 1 km depois, ainda sozinho e sentado de modo a que me consegui-se levantar. Esperei por eles, já com a resposta definida. A partir deste momento, não sou caminheiro; sou PEREGRINO! A chegada foi penosa, longas retas, o sol a bater com muita força, um calor intenso. O joelho já estava melhor e comecei a ficar mais animado. Eis que surge uma longa descida; mais um momento de sofrimento para mim. Resolvi parar ao fundo da mesma para descansar e esperei pelo “vassoura”. Acompanhei-os durante algum tempo. Ficando novamente sozinho, passado alguns kms. Nas retas já referidas juntaram-se a mim duas senhoras que me apoiaram até ao destino. Foi com grande sofrimento que acabei este dia. Depois do banho e de repostas as energias, dormir. Foi o dia que dormi melhor, acordei às 18h00m e voltei adormecer às 19h00m, até às 20h00m, hora em que me acordaram para jantar. Assim que acordei vim cá fora, olhei para o céu e pensei; ótimo o sol ainda não nasceu e temos nuvens vai estar fresco, olho para as horas no tlm. 20h00m; esta porcaria deve estar avariada. Deveriam ser 08h00m e não 20h00m. Só depois o cérebro começa a trabalhar e percebo onde estou e que horas são. Vamos jantar!
Supostamente as etapas mais difíceis, já tinham ficado para trás. No 1º e 2º dia.

4º dia/noite

00h00m, saída para a jornada final, mais 30 kms. Vamos ver como se portam os joelhos. O esquerdo, ligado, começou a portar-se bem, mas depois foi a vez do direito. Mais uma penosa caminhada até chegar perto dos Anjos da Guarda, para colocar mais um joelho elástico. Azar dos azares, “já não temos mais. Tente falar com alguém que tenha e já não precise.” Só disse; pronto tenho que aguentar. A conversa sobre desistir, tinha sido no dia anterior, não ia repetir. Consegui alguém que já tinha usado mas não precisava e tinha na mochila. Joelhos elásticos postos, pau na mão e aí vai o rapaz com um novo andar. Às 03h40m, parámos numa pastelaria que abriu propositadamente (previamente combinado) para nos servir natas acabadas de sair do forno. Muito boas e enormes, pareciam copos. Soube mesmo bem. O sofrimento continuou, com as descidas a serem feitas penosamente, o cansaço e as noites sem dormir acumulados, pesam mais que os kms a pecorrer. 04h45m, estamos na localidade de Conceição, descansar/dormir, durante meia hora. Qualquer local serve para dormir. Deito-me na berma da estrada e durmo durante meia hora. Fátima está perto, mas ainda vou sofrer muito até chegar. Algumas descidas são feitas, andar trás, guiando-me pela marcação da estrada, só assim consigo descer. Mas a ultima parte do percurso de hoje, ainda me iria fazer sofrer mais. Algumas centenas de metros senão kms a descer em caminhos de cabras (atalho, marcado, para encurtar distâncias) e onde eu não podia andar para trás. Foi penoso demais para mim. Estava a ver a hora que um dos joelhos “rebentava” de vez e eu caia. Foi mesmo muito doloroso. No final do caminho duas picadas (subidas com forte inclinação), onde no final estava, FÁTIMA. O sol já ia alto e o calor era intenso. Quando comecei a subir, senti-me bem e as dores desapareceram (dizem que é assim quando se chega, comigo aconteceu antes de chegar) e fizemos um grupo de cinco na frente do grupo principal. Só parámos à entrada de Fátima, para reagrupar. Foi simplesmente fantástico.
Fizemos então, uma procissão até ao santuário, com o grupo de PEREGRINOS e os nossos ANJOS da GUARDA, onde todos se despediram de todos. As lágrimas à chegada e durante a procissão não pararam de correr, porque pensamos em tudo aquilo que passámos para chegar ali. Demorei algum tempo até consegui ligar à D. Rosa, só para lhe dizer; “Cheguei!” e mesmo durante a chamada pouco consegui dizer. Como digo no inicio;

Comecei, caminheiro e acabei PEREGRINO!

Falaram comigo várias vezes ao tlm. a D. Rosa a D. Graça e o Miguel, respetivamente esposa, mãe e irmão. Também eles me apoiaram imenso, nesta minha peregrinação!

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